“E aí, foi lá?”

          “Sim.”

         “E havia três mulheres num casarão não muito antigo, malcuidado, danificado antes do tempo?”

          “Não.”

         “Como não? Há sim. Uma mulher mais velha, gorda, sempre de vestido listrado. Ela não o tira faz muitos anos. Nem para lavar. As rugas já tomaram o rosto, o corpo, a roupa. Tem ar de quem não viveu. Depois de meio século, continua dizendo que vai encontrar o grande amor da juventude. Aquele que abandonou por causa da proibição do pai. Homem sem profissão, quer passar fome ao lado dele? Ela, que sempre gostou de conforto e vida mansa, obedeceu. Hoje, adoça o sonho e alimenta-se dele. Engraçado é que o predestinado à pobreza virou rico e... distante. Nunca mais voltou nem voltará. Então, viu lá essa mulher?”

           “Não.”

           “Como não? Serveiralda é seu nome. Ouviu o nome; pelo menos isso, não?”

           “Não.”

          “Mas o lugar é pequeno e o casarão das mulheres, ah! todo mundo conhece. Fica bem no centro, perto do único bar da cidade. Então? Viu?”

           “Não.”

          “Hum! Se não viu Serveiralda do alto de seu mais de século de estagnação, pelo menos encontrou a filha dela: a Criadalda Trancoso. Essa lá pelos trinta e poucos anos. Mulher bonita, muito bonita mesmo, bonita demais para ficar atrás de um balcão, ainda que o da principal loja da cidade, que quase não tem nada, mas lojas! Tem até esse shopping estilo grande-cidade. Esse você viu, não? Bem no centro, na praça principal... e ela, a Trancoso, também viu, não viu?”

          “Não.”

         “Como não?! Todo mundo sabe dela: a mulher mais bonita do lugar. Briga com deus e todo mundo. Quase ignorante, estudou mal e pouco. Não quis sair da cidade para não deixar a mãe sozinha. Não se casou, também para não deixar a mãe sozinha. Não tem filhos (fez abortos), também para não deixar a mãe sozinha. Aliás, só deixa a mãe sozinha quando vai trabalhar de dia ou escapulir noite sim, noite não para encontrar o amante da vez. Sempre homem casado, poderoso, desses que prezam a família tradicionalmente ajeitada. Desses que sabem manter amante sem que a mulher desconfie, embora o mundo inteiro saiba e se cale. Se bem que calar não é bem o caso: a fofoca corre solta pelos lugares certos. Então, viu Criadalda Trancoso trocando de amante como quem troca de carro? Não viu? Quem sabe lhe falaram dela pelo apelido: Maçaneta, aliás, Maçaneta de Luxo. Sabe por que Maçaneta, não é? Não lhe contaram?! Não viu Criadalda? Impossível não avistar aquela beleza morena, atrevida e insinuante nos metro e setenta de carne bem distribuída. Viu, não viu?

          “Não.”

         “Como não? Você foi à cidade de Catumbal, não foi? Então. É lá mesmo que moram, é lá que está a Casa das Três Mulheres. Se não viu mãe e filha, exemplares típicos de formas diversas de vida estagnatória, pelo menos passou pela rua onde moram, a Rua das Mulheres, como dizem por lá. Ah! passou, né? Então ouviu os gritos?”

           “Que gritos?”

          “Os da tia de Criadalda, uma mulher criativa demais a bem dizer. Inventadora de moda, isso sim. Também belíssima, como a sobrinha. Hoje deve ter uns cinquenta anos. Foi, como Criadalda hoje, a grande atração feminina do lugar. Um monumento à beleza. Viu Modificalda, não viu? Ou melhor, ouviu... ouviu seus gritos de louca, não é mesmo?

            “Não.”

        “Mas como não? Todo mundo lá conhece a história: a mulher deu de estudar e estudar. Pior, começou a enfrentar as autoridades do lugar. Pior ainda, em época de ditadura. Mulher perigosa. Muito perigosa. Assim diziam. Porém as coisas iam ido até que — pioríssimo de tudo — Modificalda resolveu enfrentar irmã e sobrinha. Foi quando sobreveio o inferno. E olha que esse enfrentar foi apenas apontar a irrealidade em que viviam a irmã, com o sonho do passado, e a sobrinha, com o de amar não amando os tradicionais maridos certinhos que jamais deixariam lar, família e propriedade. Foi por dizer coisas assim abertamente pras outras duas, que Modificalda passou a ser isolada dentro da própria casa. Na cidade, além de dois ou três que se arriscavam a falar com ela, todos tinham medo de serem vistos com a doida. Mulher desafiadora de tudo. Hum! Até presidente da república, se passasse por Catumbal, corria o risco de ser enfrentado. Modificalda dava conta do medo que os catumbaldenses tinham dela: sabia que, no fundo, era respeito e admiração. Num lugar onde todos os pensamentos, todas as ideias, todas as atitudes inovadoras foram sepultadas havia muito e muito tempo, como não olharem com um arzinho de inveja para Modificalda? Ela sentia isso. O   ruim mesmo foi enfrentar o infindável silêncio da irmã e da sobrinha, que não falavam com ela por nada deste mundo. Punham sua cota de alimento num lugar de sempre, como se fosse pra um animal. Daí um dia amanheceu gritando de desespero, quebrou meia dúzia de pratos. Pronto. A deram por louca e a mantêm, até hoje, trancada num quarto. De lá só sai para o banho, e olhe lá! Disso tudo você soube, não?”

           “Não.”

           “Tem certeza?”

           “Tenho.”

           “Hum! Tô vendo tudo. Com certeza... Onde estarão hoje? Onde? Você sabe?”

           “Não. Como saberia?

           “Onde estarão? Você sabe?”

           “Não.”

           “Quem serão? Você sabe?”

           “Não.”

 

CARRANO, Márcia. Casarão de mulheres. In ____. Olhar de espanto. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2013, p. 41-47.

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