Às vezes escrever uma só linha basta para salvar o próprio coração.    Clarice Lispector

 

 

                    Diante dela, a garrafa. O desânimo frente ao dia que se arrastava, completamente igual aos outros iniciados com... com o quê? Ideias barafustavam trôpegas. Quando começaram os dias e noites inalteráveis? Blocos de chumbo sobre o corpo ávido de... de quem?

                    O vinho tinto espreitava-a do vidro escuro. “Não ao primeiro gole.” Goleada. Eram os aplausos no final da fala. Não sei de palavras e gols não me importam. Ele sim... ele quem? O peso da noite já engolia a manhã. Flácida, a cabeça perscrutava o vazio do apartamento. A tábua corrida refletia o rosto. Sons de ontem ecoavam. Quando foi ontem? quando?

                    O vinho agora ria. Ou sorria? Ontem, hoje, amanhã. Tudo, o instante passeando entre a boca e a garrafa, entre os lábios e a articulação de som. Digo sim à primeira frase e outras virão. Como derramar palavras nos dez minutos só dela?

                    — Vagabunda. Vaga... dissera...quem?

               Não ao primeiro ataque. Nunca soubera esse não, nunca pensara o respeito como fundamento amoroso. Escancarara-se para...quem? Poucos. Quais poucos?

                    Vim hoje, rubro o rosto, de onde? vinho hoje, só hoje, por que não hoje? quanto hoje, quanto nojo de si mesma, a quem se gritava: “Bêbadaaaaa... bêbedaaaaaaaa... babedaaaa... babeeeeee...

                    “Não ao primeiro gole.” Não ao primeiro gole, e sim à primeira garrafa. Sim, ela podia. Eu, Beatriz, não ajeito com palavras, mas gosto de tolices verbais, como beatriz por um triz, beatriz, beeebe aqui, beatriz, olha ali, olha a Liz que levou teu... teu quem? teu quê? nariz? arrebita o nariz, beatriz, tua boca não diz, Beatriz? bebe liz, que é liz? vinho liz, Beatriz?

                    A garrafa ali. Manhã, tarde, noite — a garrafa e ela numa ponte banguela. Cruzar e chegar ao grupo Missão da Água. Nele, encontraria quem vinha dizendo, há vinte anos, o não de cada dia ao primeiro gole. Eu, Beatriz, trinta e dois anos, vou cambaleando aos cinquenta e dois de palavra em palavra? Ou vou cantando de garrafa em garrafa?

                    As paredes. Os olhares. O congelador. Dez minutos para cada drama. E a placa falante: “Faltam dois minutos”. Beatriz lia além. Efeito da ressaca ou do escuro dos óculos permitindo ironias e colagens? Engole a lágrima, afia o espinho, lambe a ferida. “Onde é que há gente no mundo?” Não, “— todos eles príncipes — na vida...”  Engole a vida que te cabe neste frigorífico, segue em linha reta... evita o primeiro gole. Mergulha no mar vermelho e sai surfando sobre quem é. Quem é Beatriz? Bebe, atriz, é um triz, Beatriz.

                    A garrafa? O não? O gole? O engole? Ou a rima tonta rindo dela, a péssima com palavras? A rima, ímã embriagante, descendo de rolimã folha abaixo, cheia de ecos, vazia de poesia?

                    Onde a poesia, Beatriz? Levanta o nariz. Entre o vinho e o não, há um vão? Eco ébrio da...

                     

CARRANO, Márcia. Entre o vinho e a frase. In ____. Olhar de espanto. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2013, p. 49-53.

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