Sequer estou internada em hospital. Graças a Deus! Simples exame de rotina, em clínica especializada.

Depois de aguardar mais do que o necessário, como sempre acontece em consultórios e afins, sou levada a uma sala para o exame, que duraria uns vinte minutos. A assistente me acomodou e pediu que esperasse o médico.

Após algum tempo, em que aproveito para meditar sobre o medo de médicos, remédios, clínicas e hospitais, entra o doutor. Animadíssimo, como se fosse antigo conhecido:

— Tudo certinho, dona Márcia? E as novidades?

Senti o cheiro do sufixo inho e já me retraí com um seco "tudo bem".

Ele continuou:

— Coloque sua bolsinha na cadeira, por favor.

Eu, que estava com uma bolsa enorme — daquelas em que se carrega de celular a livro para ler na sala de espera (se a televisão idiotizante deixar!) —, coloco, silenciosa e solenemente, a quase mochila no lugar indicado. Ouço o convite:

— Senta aqui, dona Márcia, na cadeirinha.

A cadeira tinha dimensões normais. Por isso comecei foi a duvidar da normalidade linguística do médico. Passei a julgar impossível qualquer conversa civilizada com ele. Mantive-me em silêncio, como forma de protesto — inútil, é verdade.

O exame transcorreu cheio dos irritantes diminutivos, comuns no meio médico como pretensa forma de tratar carinhosamente os pacientes, principalmente se forem mais velhos.

Tudo terminado, saí da clínica intrigada com a relação existente entre minhas rugas, minha altura (um metro e sessenta e sete), meu peso (sessenta e nove quilos... hum!, com que luto sempre), minha ossatura grande e os preconceituosos inhos e inhos distribuídos artificialmente pelo doutor.

Preferia ter sido tratada como pessoa normal. Da próxima vez, acho que vou chegando e avisando:

— Sem "inhos", por favor.

Márcia Carrano

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